01 maio 2008

Biscuits



"Mãe, quero fluffy buns."
"Quer os fluffy buns que dá para fazer agora, ou os que ficam prontos bem mais tarde?" Para a minha filha, fluffy buns pode significar duas coisas, brioche (que leva horas para fazer) ou biscuits (que leva 30 minutos).
"Os que ficam prontos agora."

"Então vamos fazer biscuits."

Em casa,
biscuits são biscuits americanos, um pãozinho semelhante a soda bread ou scones que leva fermento químico e não fermento biológico. São uma tradição particular do sul dos Estados Unidos onde se come com fried chicken e gravy.

Só para confundir, na Inglaterra um biscuit é um biscoito simples, tipo biscoito maizena. Não tem nada a ver com pão, nem Pillsbury nem Popeye's Chicken.

É um pão muito fácil e muito rápido que até 50 anos atrás era um café da manha super comum feito na hora. Na minha casa a tradição continua. Num sábado ou domingo de manhã posso tranqüilamente perguntar "quem quer biscuits?" sabendo que em 30 minutos vou serví-los na mesa quentes para serem comidos com geléia ou num sanduíche de presunto e queijo. Nós especialmente gostamos com
ovo poché.

A minha família quase perdeu a tradição do biscuit. Eu sou da época que ninguém mais fazia biscuits em casa. Isso era da época da minha avó. Nos anos 70, 80 e 90 comprávamos a massa pronta, aquela massa que vem no tubo que se bate no balcão para abrir. Eram mais convenientes - whack (bata no balcão o tubo), ele se rompe sozinho, você tira as massinhas individuais de dentro, assa-as e come. O meu sogro virou fã desses biscuits prontos numa viagem aos EUA. O meu marido resolveu então trazer uns tubos desses numa vinda ao Brasil. Colocou-os na mala onde, sem a refrigeração necessária, eles explodiram. Felizmente ele tinha colocado-os dentro de um saco plástico. Depois de mudar para o Brasil, e sem chance de "importar" massa pronta, resolvi aprender fazer os biscuits da minha avó.

É uma coisa que a ela gostava muito de fazer. A receita dela usa
buttermilk em vez de fermento pó. O meu dicionário me explica que buttermilk é leitelho em português. Eu até acredito, mas é completamente inútil porque nunca encontrei leitelho aqui. Até esse programa de edição não reconhece a palavra.

Procurei a receita no Betty Crocker Cookbook. O Betty Crocker é uma pedra gigante na fundação da autêntica culinária norte americana. É a Dona Benta dos Estados Unidos. Diga-se de passagem, que nunca existiu essa mulher Betty Crocker. Era somente um personagem criado pelo Washburn Crosby Company nos anos 20, uma obra de arte de marketing para dar a fabricante de farinhas uma cara bem caseira (
leia aqui a história de Betty Crocker). Betty Crocker virou então aquela autoridade que nenhuma dona de casa ousava questionar. Vá entender... Pois bem, desde que mudamos para o Brasil comecei a depender muito da Betty Crocker como uma referência das tradições americanas. É onde procuro receitas para coleslaw, pancakes e o alternativo para os biscuits da minha avó.



A qualidade do biscuit depende completamente da qualidade da gordura. Gosto de usar uma boa manteiga sem sal. A Betty Crocker pede "shortening" ou seja gordura vegetal. Eu não gosto de gordura vegetal porque é cheio de gordura trans além de não ter sabor - ou seja, só coisas ruins sem qualquer benefício. Lembro da minha avó falando que a mãe e a avó dela fizerem biscuits com banha fresca. Ela explicava que somente com banha os biscuits teriam o flake, a textura folheada. Ela lamentava que não tinha mais como fazer os biscuits com banha. Ela não encontrava mais a banha fresca, somente a banha industrializada e gordura vegetal (Crisco) vendida em blocos ou latas no supermercado. Gorduras animais saíram de moda. Era a época que todo mundo viu a chegada da margarina (e outros produtos como adoçantes artificiais, jantares congelados, poliester) como uma salvação. Imagine então ela toda chique vestida de twin set de rayon, usando sweet´n low no café, guardando a gordura de bacon num vidro para fazer ovo estrelado e lamentando o desaparecimento da banha verdadeira!

Sempre fiquei curiosa sobre banha. Imaginei usá-la para fazer biscuits, massa de torta e tortillas, mas nunca tive coragem. A Lara Ferroni do Cook & Eat explica
como fazer a sua própria banha (Parabens a corajosa Lara Ferroni!)

Assim, se não quiser usar banha fresca, recomendo usar manteiga sem sal. Evite gorduras artificiais como gordura vegetal e margarina, ou manteiga com sal. Esses produtos são muito líquidos e os biscuits ficam como pedras.



Biscuits
a receita adaptada de "Baking Powder Biscuits" de Betty Crocker's New Cookbook
(troquei a gordura vegetal para manteiga sem sal)
100g de manteiga sem sal, fria, cortada em cubos
2 xícaras de farinha de trigo comum
1 colher de sopa de açúcar
1 colher de sopa de fermento em pó
1 colher de chá de sal e 3/4 xícara de leite

Pré-aqueça o forno 180ºC. Numa vasilha grande, misture a manteiga, farinha, açúcar, fermento e sal. Você pode fazer isso num processador. Adicione o leite aos poucos. Misture até juntar os ingredientes. Não misture demais. A massa fica bem grudenta mesmo.

Transfira a massa para uma área de trabalho enfarinhada. Forme a massa em um oval ou retângulo com a espessura de 3cm. Corte os biscuits com um cortador ou um copo. Passe o cortador ou copo na farinha antes de cortar a massa. Corte a massa em 6 a 8 biscuits.

Transfira os biscuits para um tabuleiro forrado com papel manteiga e leve ao forno. Asse os biscuits por 10 a 12 minutos, ou até as beiradas ficam douradas. Sirva quentes.

19 comentários:

  1. What delicious looking biscuits! I love that egg sandwich... Scrumptious!

    cheers,

    Rosa

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  2. Gostei da história... trouxe-me doces lembranças de minha época de AFS. Morei lá no final da década de 80 e minha mãe fazia tudo from scratch, mesmo porque eram tantos filhos que ficaria caro... Mas eu me lembro dos preparados também da bisquick não? Quanto ao buttermilk, acho acho que ninguém está traduzindo mais, pois só as receitas americanas que levam. Eu faço assim, coloco 1 colher de limão para cada xícara de leite e deixo repousar por 10 minutos para ter o buttermilk... Bem, adorei o post you made me feel homesick... take care...

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  3. @ Rosa - Thanks!

    @ Cris - Que boa dica do buttermilk. Vou experimentar. É incrível como tantas memórias podem viver dentro de um pão.

    Beijos - Suzie

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  4. a receita que temos, de minha bisavó inglesa, usa m anteiga e coalhada. Buttermilk é soro de leite coalhado, segundo o dicionário. Logo, coalhada é um plus! Ficam ótimos!

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  5. a receita que temos, de minha bisavó inglesa, usa manteiga e coalhada. Buttermilk é soro de leite coalhado, segundo o dicionário. Logo, coalhada é um plus! Ficam ótimos!

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  6. Ficou ótimo, mas queria que o topo ficasse mais douradinho... Vou tentar com uma temperatura de forno mais baixa e mais tempo, vamos ver se dá certo... E não tinha papel manteiga, fiz com a forma untada, deu super certo, textura perfeita, amanteigada e esfarelentinha! Ótimo para comer sempre quentinho e com manteiga... Obrigada!!

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  7. Boa tarde, sou descendente de Americanos do Sul e quando criança eu achava que todos conheciam o biscuit por ser uma coisa tão normal em casa. Até hoje minha mãe os faz com maestria e é, sem sombra de dúvida, o campeão de pedidos lá em casa.

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  8. Qual a quantidade de leite coalhado que devo adicionar mesmo??

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  9. A quantidade de leite é 3/4 de uma xícara.

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    1. Coloco os mesmo 3/4 de uma xícara, mas de "leite coalhado" é isso?

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  10. Definitivamente vou testar em casa! Obrigada pela dica!!!
    Um grande abraço da mineirinha gulosa! rsrsrs

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  11. vou aos EUA à negócios desde a década de 80, e meu irmão mais novo mora em Miami - todas as vezes que vou lá eu compro biscuit congelado para comer no café da manhã, e devoro vários quando servem no avião.
    Fui procurar a receita em inglês, mas tive o mesmo problema para encontrar os ingredientes aqui.
    Então achei sua receita! Pensava que na massa iria maizena pela textura do original, e fiquei surpreso em ver que não tem nada excepcional tipo gordura de ornitorrinco ou alguma outra coisa que só se acha em Hogwarts.... a única coisa que farei diferente é usar papel alumínio anti-aderente da Reynolds (o queijo que derrete dos sanduiches fica soltinho)
    Tentarei fazer o biscuit e usarei minha filha de cobaia para ver se ela gosta!
    Valeu!
    Marcus

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  12. Fiz a receita, ficou meio farelento mas o gosto é igual! Muito bom, obrigado!
    Marcus

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  13. Morei quase um ano nos EUA e me apaixonei pelos biscuits (e por Chicken Pot Pie, Pumpkin Pie, Apple Pie...) e minha filha vive me pedindo para fazer. Que bom ter encontrado aqui! Vou tentar hoje. bjs

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  14. Estou morando nos EUA há algums meses... comprei no mercado e amei!! Minha amiga me mandou a receita do teu blog, vou passar para outras pessoas! bjs

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  15. Estou grávida e hoje amanheci com desejo de biscuits... acho que vc me salvou! Beijos e obrigada!

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  16. Parabéns pelo site, Suzie! Adoro acompanhar suas histórias e receitas. Meus biscuits deram super-certo! Deliciosos! Farei mais hoje, com certeza! Sucesso! Bjs!

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  17. Adorei o post, já tinha consultado o site da Betty Crocker em busca de receitas, mas confesso que não sabia que ela nunca existiu, sempre achei que era uma mulher famosa como Martha Stewart.

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  18. buttermilk ou leitelho = soro que solta do creme de leite fresco ao bater manteiga!
    Sabe quando você vai bater manteiga com creme de leite fresco? assim que você chega ao ponto da manteiga ele começa a soltar uma espécie de soro. Este soro é leitelho ou, no inglês buttermilk. ;)
    Assim você faz manteiga caseira (e pode temperar, congelar, passar nos biscuits... etc) e o ingrediente crucial da sua avó.
    Try it!!!!

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