11 setembro 2011

Nova Orleans: Memórias do French Quarter


Tampa de hidrometro, ubíquito nas calçadas de Nova Orleans
Meu love affair com Nova Orleans começou no French Quarter 20 anos atrás.  Durante dois anos morei, trabalhei e saí pouco do bairro retangular de sete por 12 quarteirões, que encosta no rio Mississippi.  Depois morei em outra parte da cidade e conheci Nova Orleans melhor.  Mas, tudo começou aqui. Mês passado voltei para passear e participar na IFBC - Conferência Internacional de Blogueiros Culinários .  Reentrar esse mundo foi muito emocionante para mim.  Apesar de furacões e vazamentos de petroleo o Quarter é quase o mesmo, até melhor em muitos sentidos.  Gostaria dividir um pouco com vocês algumas coisas que eu amo do French Quarter

  
O French Quarter também chamado Vieux Carré, é o centro histrórico da cidade, fundada em 1718.  Mais que um ponto histórico, o Quarter é um polo de cultura viva.  É o caldeirão cercado por pântano onde se misturaram as influências indígenas, Espanholas, Francesas, Africanas, e de todo mundo que contribuiu durante os 300 anos seguintes para fazer uma cultura única, chamada Creole.


As ruas são cheias de restaurantes, hoteis, lojas, bares e boites, de todas as sensibilidades, altas e baixas, além das casas e apartamentos dos moradores  que vivem ali, colaboradores imersos nesta festa diária. É onde fica a famosa Bourbon Street cheio de bares, música ao vivo e o cheiro de mil noites bem festejadas.  Mas, o resto do French Quarter é um lugar de incomparável charme.


Um exemplo deste charme é o restaurante Court of Two Sisters na Royal Street.  Serve um buffet de pratos bem tradicionais como grits and grillades (guisado com canjiquinha), roasted turkey (peru assado), eggs benedict (ovo poché com sauce hollandaise) and turtle soup (sopa de tartaruga com xerez). Para alguem em busca de saber o que é comida americana, o Court of Two Sisters é um bom lugar de começar.

Sugiro o brunch acomapanhado com umas mimosas (suco de laranja com espumante) na sombra da glicínia no pátio. Na hora do brunch (todo dia de 9h -3h) um trio de jazz toca. Não consigo imaginar passar uma manhã sossegada assim com tanta elegância.  Somente considero o brunch no Columns Hotel um rival, mas fica numa outra parte da cidade, e vou falar dele numa outra postagem.

Ao lado do Court of Two Sisters é o cafe Royal Blend, com pátio, bom au lait e wifi de graça.  Então estamos quase no coração do Vieux Carré na Royal Street que o atravessa pelo meio.  Eu a considero a rua mais sofisticada do Quarter, onde encontramos lugares únicos.

Seguindo na direção da Canal Street, você encontra a mansão original do Governador, cercada por magnolias gigantes, que hoje é sede do Tribunal Supremo Estadual de Louisiana, o Hotel Monteleone, restaurantes como Brennan's e Antoine's e muitas galerias de arte, lojas de joias, artesanato regional e antiguidades.  Passeando na Royal Street você realmente caminha pela história do lugar.   
Pratos e utensilios para melhor saborear os mariscos

Uma loja que chamou a minha atenção é a Roux Royale. É uma loja de louças que celebra a culinária local, especialmente os mariscos.  Eles tem tudo para virar qualquer prato simples em uma festa.  O tema que se repete na loja é Eat, Drink and Be Merry (Coma, Beba e Seja Feliz).  Também não falta a flor-de-lís, o simbolo da Coroa Francesa, e também da cidade.

Seguindo Royal Street na direção da Avenida Esplanade, você encontra um jardim nos fundos da St. Louis Cathedral.  Virando à direita no Pirate's Alley (onde fica a Faulkner House, casa onde morou o escritor William Faulkner, agora uma livraria), você chega na linda Jackson Square populada por artistas, músicos, videntes e esculturas humanas chamando a atenção do turistas procurando alívio do calor nas sombras dos carvalhos antigos que cercam a praça.  Jackson Square também é cercada pela St. Louis Cathedral, o Lousiana State Museum no Cabildo e Presbytère, e alguns do prédios mais antigos dos Estados Unidos.  Andando na direção do rio Mississippi você acaba na Decatur Street.      

Há muitas variedades de molhos de pimenta no N'awlins Cafe & Spice Emporium


 O jacaré faz parte da cultura Nova Orleana, tanto quanto o voodoo, sempre com um senso de humor.


No Cajun Market dentro do French Market, as ofertas incluem produtos do pantano como linguiças de lagostim e jacaré,
Virando à esquerda na Decatur Street, indo na direção da Avenida Esplanade, encontra-se o Café du Monde, famoso pelos beignets e café com chicória.

Um pouco mais à frente fica a Central Grocery, um mercado com produtos italianos servindo imigrantes e seus familiares por gerações em busca de azeite e tomates enlatadas do Velho Mundo durante uma era, quando essas coisas não existiam nos Estados Unidos.  Foi tambem o lugar onde se originou a muffuletta, um sanduiche num pão siciliano gigante recheado com frios e salada de azeitonas.  Houve varias vezes que uma muffuletta era o que se comia o dia inteiro; metade para o almoço e metade para jantar.

Continuando na Decatur Street, chegamos no French Market, o mercado mais antigo do Pais, onde encontramos produtos locais como molho de pimenta, linguiça de jacaré e bonecas de voodoo bem como achados turisticos e artisticos do mercado de pulgas. 

O meu café favorito num canto tranqüilo do French Quarter
Seguindo na mesma direção depois do French Market saimos do French Quarter e entramos no bairro Faubourg-Marigny.  É onde fica a Frenchmen Street, uma excelente opção para a noite.  A Frenchman, antes do Katrina tinha dois famosos nightclubs: o Café Istanbul e o Café Brazil.  Ambos fecharam.  Hoje, no lugar tem mais de oito opções para se ver música ao vivo na região. Na vizinhança continua o nightlub The Dragon's Den e o Checkpoint Charlie onde pode tomar uma cerveja, ver música ao vivo, jogar sinuca e lavar a roupa, tudo no mesmo lugar.    

Mas, voltando para o French Quarter: sequindo a Chartres Street (paralela à Royal), indo na direção a St. Louis Cathedral, você encontrará o Ursuline Convent, onde foi plantado o primeiro jardim de ervas na região, que influenciou a culinária creole.  Subindo Ursuline Street chegará no meu favorito café do French Quarter, o Croissant d'Or.  É um patisserie com o melhor café au lait na cidade.  Os croissants são enormes e muito gostosos.  Descobri esse canto tranquilo em 1991.  Tinha acabado de me mudar da Califórnia e não conhecia ninguem na cidade.  Passei horas nesse café. Foi aqui que criei o habito de ler o Times Picayune e o New York Times.  



 Corn muffins, mexilhões, shrimp and grits e o menu de coqueteis no restaurante NOLA 

Continuando na Chartres você volta para o Jackson Square e a entrada do St. Louis Cathedral. 
Mais um pouco para frente, encontra Kitchen Witch Cookbooks, na Toulouse Street entre Chartres e Royal.  É um sebo dedicado a livros de culinária e gastronomia.

Mais um quarteirão à frente, na St. Louis Street, fica um dos o restaurantes espetaculares do Emeril Lagasse, o NOLA. Comi uma entrada de mexilhões servida com uma fatia grossa de foccaccia para ensopar num caldo gostoso de chardonnay e ervas, seguido por um prato típico da região, o shrimp and grits (camarões picantes por cima de canjiquinha branca),  acompanhados por corn muffins (bolinhos de fubá) divinos e uma garrafa de pinot grigio.  O estilo do Emeril é de fazer apresentações atualizadas de pratos típicos sem sair muito de tradição.  O estilo é o mesmo do que quando comi lá pela primeira vez em 1991. Os garçons servem todos na mesa ao mesmo tempo.  Se tivesse 8 pessoas na mesa, 8 garçons chegariam com os 8 pratos e os convidados seriam servidos simultaneamente.  É um pequeno detalhe, mas, não o esqueci mesmo apos 20 anos. Fiquei feliz que a tradição continua.

Para a sobremesa, desça a St. Louis Street. na direção do rio para voltar a Decatur Street. onde fica Southern Candy Makers . Gosto de comer pralines e turtles , ambos são doces feitos com pecans.  Você pode achar pralines em todo lugar em Nova Orleans, até no aeroporto.  Eu acho que o melhor praline é do Southern Candy makers.

Barriga cheia, você deveria ter fome de música.  No próximo quarteirão é a Louisiana Music Factory.  Eles tem CDs, DVDs, LPs novos e usados de todo tipo de música , mas com o foco nos artistas locais.  As vezes é o único lugar onde se acha uma gravação de tiragem limitada.  Da mesma maneira que a mistura de influencias produziu uma culinária única, ela tambem produziu uma cultura de música excepcional.  Nova Orleans é o berço de jazz, e tem muitos artistas que continuam contribuindo novas ideias para essa arte como: Henry Butler e Irvin Mayfield, Jr.  Mas, as influencias que deram origem ao jazz não sumiram e continuam vivos aqui, como as brass bands que agora tocam uma mistura de jazz, funk e a "pia da cozinha".  Algumas ótimas são  Soul RebelsThe Rebirth Brass BandThe New Birth Brass BandThe Dirty Dozen e o  Treme Brass Band.  Além disso, tem todo tipo de música presente na Cidade: do Cajun e Zydeco até Latin, Rap, Country, Pop e até Klezmer.  E tem os artistas originais que nao se enquadram em qualquer classificação como Allen Toussaint, Professor Longhair e Dr. John.

Durante essa viagem fui ver e Kermit Ruffins três vezes em uma semana.  Duas das vezes ele tocou um duelo de trompetes com Irvin Mayfield, Jr. no club do Irvin no Royal Sonesta na Bourbon Street.  Na terceira vez foi no Blue Nile no Frenchmen Street quando pulei no palco com mais 15 mulheres para cantar "I' Gotta Feeling" do Black Eyed Peas. Festejar assim dar fome.

E a música tem tuda a ver com comida.  É incrivel como as letras de muitas das músicas são de comida, um exemplo perfeito é Kermit Ruffins and the Barbecue Swingers.  Ele quase da a receita na letra.  E muitas vezes antes do show ele fica na calçada do boite comandando a grelha para galera.

Aqui foi somente uma introdução das coisas que amo do French Quarter.  Vou continuar contando a historia da viagem falando de outras partes da cidade.  Espero que um dia quando forem a Nova Orleans essas dicas sejam uteis para vocês. Enquanto isso, vou te deixar com o link da receita de Shrimp and Grits do Emeril Lagasse.

Um comentário:

  1. Lugares maravilhosos; dá muita vontade de viajar para ver tudo de perto, tudo descrito de uma maneira perfeita, dá quase para sentir o aroma do croissant e do café com leite. Adorei! Julieta.

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